Por Alexandre Carrano, engenheiro eletricista e fundador da Carrano Solar
Com a abertura do mercado livre de energia marcada por decreto, quase toda conversa com empresário termina na mesma dúvida:
“Carrano, vale mais a pena ir para o mercado livre ou colocar energia solar?”
Parece uma pergunta sensata. Não é. É como perguntar se é melhor trocar de banco ou quitar a dívida: as duas coisas mexem no seu dinheiro, mas atacam problemas diferentes.
Antes de escolher a solução, é preciso saber qual parte da conta você quer atacar e que tipo de risco aceita carregar.
Cada solução ataca uma parte diferente da conta
Uma conta de energia não é um número só. Simplificando, ela tem três partes:
1. O fio (distribuição). É o uso da rede da distribuidora. Você paga isso em qualquer cenário, porque a energia continua chegando pelo mesmo fio.
2. A energia em si. São os kWh que você consome. É aqui que mercado livre e solar entram, cada um de um jeito.
3. A demanda (no Grupo A). É a potência que você reserva da rede, cobrada em R$/kW, use você ou não. Entenda como reduzi-la em nosso texto sobre peak shaving.
Agora veja o que cada solução faz:
O mercado livre troca o fornecedor da energia. Você deixa de comprar da distribuidora e passa a comprar de uma comercializadora, por um preço negociado. A economia vale para todas as horas do dia, mas só na parcela da energia. O fio e a demanda continuam lá.
A energia solar troca a origem da energia. Você produz parte do que consome. A economia se concentra nas horas de sol e no volume que o sistema gera. A demanda contratada, em geral, continua a mesma, porque às 19h, com a fábrica ligada e sem sol, você ainda precisa da rede.
Portanto, a pergunta “qual economiza mais?” depende de quando e como você consome, e não de qual tecnologia está na moda.
A verdadeira diferença está no risco
Esse é o ponto que quase nenhuma proposta comercial explica.
Quem instala energia solar faz um investimento hoje e fixa o custo de boa parte da energia por 20 ou 25 anos. Em troca, carrega riscos de longo prazo:
- Técnico: projeto mal feito, geração abaixo do prometido, manutenção negligenciada.
- Regulatório: a regra muda ao longo da vida do sistema. A cobrança do Fio B na geração distribuída sobe ano a ano pela Lei 14.300, e há distribuidoras negando conexão alegando inversão de fluxo.
- De capital: o dinheiro fica imobilizado no telhado.
Quem migra para o mercado livre não investe em equipamento, mas assina contratos de curto e médio prazo e carrega outros riscos:
- De preço: quando o contrato vence, a renovação acontece no preço do momento, que pode ser bem pior.
- De contraparte: em 2026, pelo menos seis comercializadoras entraram em recuperação judicial.
- De gestão: alguém precisa acompanhar contrato, consumo e mercado. Isso não é automático.
Nenhuma das duas listas é melhor que a outra. São riscos diferentes. A decisão certa depende de qual risco você sabe gerenciar e qual deles tira o seu sono.
Já tem energia solar? Ela vai com você para o mercado livre
Muita gente acha que quem tem energia solar não pode migrar para o mercado livre. A confusão vem de um termo técnico: “geração distribuída”, na regulação, é o nome do modelo de compensação de créditos com a distribuidora, e não do painel solar em si.
O que não existe no mercado livre é a compensação. O gerador solar instalado junto à carga continua lá, gerando energia e reduzindo o que você compra. Para migrar com ele, é preciso cumprir as regras de medição do mercado livre, adequar a geração para que não injete excedentes na rede (ou tratá-los pelas regras do mercado livre) e assumir os custos dessas adequações.
1. O gerador continua gerando; muda só o destino do excedente.
No mercado livre, a energia não vira crédito na distribuidora. A Enel São Paulo explica que, ao entrar no ambiente livre, o consumidor deixa de participar do sistema de compensação. Ele deve então adequar o ponto de conexão para que a geração não injete energia na rede, ou tratar a usina como autoprodução dentro do próprio mercado livre. Na prática, o gerador passa a abater o consumo na hora em que gera, em vez de gerar créditos. O que acontece com o excedente nesse cenário está em Migrou com solar? A energia que você está jogando fora.
2. Os créditos acumulados não precisam ser perdidos.
A Cemig, por exemplo, informa que, ao encerrar o contrato, o saldo de créditos pode ser transferido para outra unidade do mesmo titular. Nos empreendimentos compartilhados (condomínios, consórcios e cooperativas), pode ir também para unidades de outros participantes. Para transferir a outro titular, o pedido precisa ser feito com pelo menos 30 dias de antecedência. O ideal é planejar a migração para não deixar saldo parado.
3. Os prazos são de mercado livre.
A migração começa com a carta de denúncia do contrato com a distribuidora. Na Enel São Paulo, ela deve ser enviada com 180 dias de antecedência da data pretendida. Ou seja, é um processo de meses.
4. A medição pode precisar de adequação, e isso pode ter custo.
Todo consumidor livre precisa de um Sistema de Medição para Faturamento (SMF) adequado às regras da CCEE. Dependendo do padrão de entrada, a adequação vai de uma simples troca de medidor até obras na infraestrutura. Em instrução técnica da antiga Eletropaulo (hoje Enel SP), parte desses custos cabe ao consumidor. Uma gestora do setor cita valores típicos em torno de R$ 4 mil, podendo chegar a R$ 20 mil em casos complexos. Para quem tem usina, soma-se a adequação da própria geração para que ela não injete energia na rede.
5. Verifique antes se o caminho tem volta.
A regra que vigorou na antiga REN 482/2012 vedava registrar como geração distribuída uma instalação que já tivesse tido sua energia contabilizada na CCEE. Ou seja, voltar para a compensação depois de migrar pode não ser possível. Trate a decisão como de longo prazo.
Na prática: a pergunta não é “posso migrar?”, e sim “quanto vale para mim abrir mão da compensação em troca do preço do mercado livre, somando os custos de adequação?” Essa conta precisa ser feita com a fatura real e com a curva de geração da usina. Para algumas empresas ela fecha. Para outras, não.
Nem sempre é um ou outro
Para várias empresas, a melhor resposta é as duas coisas, bem combinadas. Um consumidor no mercado livre pode ter geração solar no próprio telhado para consumo local, reduzindo a energia que precisa comprar. Não há compensação de créditos, e por isso o sistema precisa ser dimensionado para o consumo real, não para “zerar a conta”.
Esse arranjo exige mais engenharia e mais planejamento. Mas, para quem consome muito durante o dia, costuma ser mais robusto que qualquer solução isolada. E é aqui que o armazenamento entra na conversa.
Quatro perguntas para fazer antes de decidir
1. Quando você consome?
Uma operação concentrada no horário comercial combina naturalmente com solar. Uma operação 24 horas, ou forte à noite, tende a se beneficiar mais do mercado livre.
2. Você está no Grupo A ou no Grupo B?
O Grupo A já pode migrar. O Grupo B, só a partir de novembro de 2027 (comércio e indústria) ou de novembro de 2028 (residências).
3. Você prefere investir ou contratar?
Solar exige capital ou financiamento. O mercado livre não exige investimento, mas exige gestão contínua.
4. Qual risco você aceita carregar?
O risco técnico e regulatório de longo prazo da geração própria, ou o risco de preço e de fornecedor dos contratos de mercado?
Se alguém te oferecer uma resposta antes de fazer essas perguntas, desconfie.
A pergunta certa
A pergunta certa não é “mercado livre ou solar?”. É:
Qual combinação de soluções reduz a minha conta com um risco que eu entendo e consigo gerenciar?
Respondê-la exige conhecer a sua curva de carga, a sua fatura e o seu apetite a risco. Depois disso, a tecnologia é só consequência.
E na sua empresa: você sabe dizer quanto da energia que consome é usada durante o dia?
Leia também
- Migrou com solar? A energia que você está jogando fora
- Bateria não é economia. É seguro.
- Peak shaving: como cortar os picos de demanda da sua indústria
Fontes
- Canal Solar — decreto da abertura do mercado livre na baixa tensão
- Enel SP — migração para o mercado livre (geração no ambiente livre, prazos, SMF)
- Cemig — migração para o mercado livre (transferência de créditos)
- Enel/Eletropaulo — instrução técnica de adequação do SMF
- Clarke Energia — adequação do SMF
- Energês — geração distribuída x mercado livre
- Canal Solar — autoprodução no ACL após a Lei 15.269
- eixos — crise das comercializadoras
Alexandre Carrano é consultor especialista em eficiência energética e fundador da Carrano Solar, empresa de engenharia especializada em projetos fotovoltaicos para indústrias e comércios no Sul do Brasil.
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