Por Alexandre Carrano, engenheiro eletricista e fundador da Carrano Solar

Na conta de uma indústria no Grupo A, existe uma linha que costuma assustar mais que o consumo: a demanda. Ela é a potência que você reserva da rede, e a distribuidora cobra por ela todo mês, use você ou não.

O peak shaving, ou corte de picos, é o conjunto de técnicas para impedir que alguns minutos de consumo alto definam o custo do mês inteiro.


Por que poucos minutos custam o mês inteiro

A distribuidora mede a potência em intervalos de 15 minutos e considera o maior valor registrado no ciclo de faturamento. Basta um único intervalo acima do limite para a cobrança acontecer.

Pela Resolução Normativa ANEEL nº 1.000/2021 (art. 301), existe uma tolerância de 5% sobre a demanda contratada. Passou disso, a cobrança de ultrapassagem incide sobre todo o excedente, e não só sobre o que passou dos 5%, com o dobro da tarifa de demanda. Somando a demanda que você já paga, cada kW acima do contrato pode custar cerca de três vezes mais que um kW contratado (Solarprime).

Ou seja: uma partida de motor mal coordenada às 10h15 de uma terça-feira pode definir a fatura do mês.


Como o corte de picos funciona na prática

1. Deslocamento e escalonamento de carga. É a solução mais barata. Partir motores em sequência, e não juntos, e programar cargas não essenciais para outros horários já resolve boa parte dos picos.

2. Controladores de demanda. Equipamentos que monitoram a potência em tempo real e desligam temporariamente cargas pré-definidas quando o limite se aproxima.

3. Baterias (BESS). O sistema de armazenamento entrega energia nos momentos de pico e evita que a potência puxada da rede passe do limite. É a solução mais flexível, e também a de maior investimento. Antes de decidir, leia Bateria não é economia. É seguro..

4. Geração própria. A geração solar reduz a energia comprada, mas não garante o corte de picos: o pico pode acontecer num dia nublado ou à noite. Para um corte de picos garantido, a geração precisa vir acompanhada de armazenamento ou de controle.


Verde ou azul: o corte de picos muda de valor

Na tarifa azul, há uma demanda contratada para o horário de ponta (na Copel, das 18h às 21h nos dias úteis) e outra para fora da ponta. Cortar o pico da ponta vale mais.

Na tarifa verde, a demanda contratada é única, mas o consumo no horário de ponta tem tarifa bem mais alta. Aqui o ganho vem mais de deslocar consumo para fora da ponta do que de cortar a demanda.

Antes de investir, vale conferir se a sua empresa está na modalidade tarifária certa. Às vezes a maior economia vem de uma simples troca de modalidade ou de um ajuste no valor contratado, sem nenhum equipamento.


O primeiro passo é medir

Nenhuma dessas soluções deve ser dimensionada pela conta mensal. A fatura mostra o maior pico do mês, mas não mostra quando ele aconteceu, quanto durou nem que carga o causou. Para isso é preciso medir a curva de carga em intervalos curtos, por pelo menos algumas semanas.

Com a curva em mãos, a resposta costuma surpreender: muitas vezes o pico vem de uma única carga, num horário específico, e se resolve com uma mudança de rotina.

Na sua empresa: você sabe que carga causou o maior pico de demanda do último mês?


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Fontes


Alexandre Carrano é consultor especialista em eficiência energética e fundador da Carrano Solar, empresa de engenharia especializada em projetos fotovoltaicos para indústrias e comércios no Sul do Brasil.

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